Venda de bonecas produzidas por mulheres apenadas na Paraíba chega ao TST

Venda de bonecas produzidas por mulheres apenadas na Paraíba chega ao TST














Iniciativa integra o Emprega Lab Itinerante, ação da Justiça do Trabalho no Programa Pena Justa 

 

07/10/2026 – Imagine um castelo de bonecas. Talvez a primeira imagem que venha à cabeça seja a de um lugar colorido, repleto de tecidos, fitas, linhas, vestidos em miniatura, cabelos de lã e bonecas espalhadas por todos os lados. Um espaço alegre, delicado e fantasioso.

Na Penitenciária Feminina Maria Júlia Maranhão, em João Pessoa (PB), o “Castelo de Bonecas” é um pouco diferente do que a imaginação sugere. Em uma sala de tamanho médio, com paredes em tons frios, quinze mulheres trabalham, de segunda a sexta-feira, oito horas por dia, na produção artesanal de bonecas de pano.

Às 8h, elas deixam as chamadas “celas de trabalho”, localizadas em um pavilhão separado das demais apenadas, e seguem para o espaço que recebeu o nome de fábrica do “Castelo de Bonecas”.

A fábrica tem algumas máquinas de costura, duas grandes mesas ao centro, estantes com tecidos e outros materiais de trabalho. Em uma pequena sala ao lado, duas mulheres se dedicam à delicada etapa de pintar os olhos das bonecas.

As peças são produzidas no âmbito do projeto “Castelo de Bonecas”, uma iniciativa voltada à capacitação profissional e à geração de trabalho e renda para mulheres privadas de liberdade. O projeto busca utilizar o artesanato como ferramenta de formação profissional, ocupação e preparação para a reinserção social.

Agora, essas bonecas atravessam os muros da unidade prisional. A partir deste mês de outubro, elas serão comercializadas na loja da Astrisutra, no mezanino do bloco A do Tribunal Superior do Trabalho (TST), em Brasília. 

A iniciativa integra o Emprega Lab Itinerante, uma das ações da Justiça do Trabalho no âmbito do Programa Pena Justa, que busca ampliar oportunidades de trabalho e qualificação para pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional.

Saiba mais: TST firma acordo com o CNJ para ampliar inserção sociolaboral de pessoas egressas do sistema prisional

Castelo de Bonecas

Coordenado pela policial penal Thailma Teixeira, o projeto “Castelo de Bonecas” oferece, há 14 anos, às mulheres privadas de liberdade a oportunidade de aprender um ofício e desenvolver habilidades em artesanato e costura.

O trabalho é realizado de forma coletiva e envolve diferentes etapas. Primeiro, o molde é desenhado no tecido, que depois é recortado, costurado e preenchido. Dessa forma, cada boneca passa pelas mãos de todas as artesãs até ganhar forma.

Esse processo também permite que o conhecimento seja compartilhado entre as participantes. “As mulheres que já dominam determinada técnica ensinam as colegas que estão começando e, assim, cria-se uma rotina de aprendizado e troca dentro da unidade prisional”, compartilha a policial penal.

Atualmente, 15 mulheres participam da produção. O número é pequeno diante das mais de 200 mulheres que cumprem pena na unidade, mas corresponde à capacidade do espaço destinado ao projeto. 

As mulheres que têm interesse em trabalhar no “Castelo de Bonecas”, mas ainda não conseguiram uma vaga, entram em uma lista de espera e aguardam a oportunidade. Para definir quem pode participar, são considerados fatores como interesse, aptidão e comportamento.

Remuneração e ressocialização

Segundo dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais, apenas 20% das pessoas presas exercem alguma atividade laboral. Entre elas, mais da metade não recebe pagamento em dinheiro pelo trabalho realizado.

No “Castelo de Bonecas”, além de aprender um ofício, as mulheres que participam também têm direito a uma parte dos recursos obtidos com a venda dos produtos. Do valor arrecadado, uma parcela é destinada à compra de tecidos e outros materiais necessários para manter a produção. O restante é dividido entre as participantes.

Para receber esses valores, são abertas contas bancárias em nome de cada uma das mulheres. Como as internas não têm acesso direto às contas, os familiares geralmente ficam responsáveis por auxiliar na administração dos recursos.

O trabalho também contribui para a redução do tempo de cumprimento da pena. Conforme as regras da execução penal, a cada três dias de trabalho, é possível remir um dia da pena.

Para a coordenadora do “Castelo de Bonecas”, Thailma Teixeira, levar os produtos ao público é parte importante do processo de ressocialização, pois amplia os espaços de comercialização e as oportunidades de reconhecimento e valorização do trabalho realizado pelas apenadas.

“As pessoas aqui fora não têm noção do tanto que contribuem para a mudança de vida delas. Cada visita que elas recebem de pessoas que valorizam e elogiam o trabalho, é um incentivo para elas quererem ser pessoas melhores. Isso ajuda demais na ressocialização”, destaca Thailma Teixeira.

Emprega Lab

A comercialização das bonecas no TST faz parte do Emprega Lab, iniciativa da Justiça do Trabalho desenvolvida no âmbito do Programa Pena Justa. A proposta é criar caminhos para aproximar pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional de oportunidades de trabalho e geração de renda.

O Emprega Lab funciona como um espaço de articulação entre diferentes atores, como a Justiça, os órgãos responsáveis pela administração penitenciária e o setor produtivo. Em sua modalidade itinerante, a iniciativa amplia as possibilidades de comercialização desses produtos.

De acordo com Maria Aparecida Gadelha, juíza auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba e coordenadora do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário do Estado da Paraíba, a participação da Justiça do Trabalho é importante para garantir que o trabalho desenvolvido pelas pessoas privadas de liberdade seja realizado de forma digna e para ampliar o conhecimento sobre direitos trabalhistas.

“É importante a Justiça do Trabalho estar conosco para agregar os seus processos e conhecimento, trazendo o olhar trabalhista para assegurar que o trabalho exercido por aquelas pessoas seja realmente digno. Quando elas encontram o mercado formal, é importante que as pessoas tenham condições de se inserir no mercado conhecendo seus direitos”.

Loja da Astrisutra

As bonecas produzidas pelo “Castelo de Bonecas” estão disponíveis para a compra na loja da Astristura, no mezanino do bloco A. 

A loja da Astrisutra também comercializa o Café Liberdade, produzido por agricultores familiares que foram resgatados de condições degradantes de trabalho e hoje atuam de forma autônoma e coletiva no interior da Bahia. A iniciativa busca contribuir para a geração de trabalho e renda e integra ações de inclusão produtiva.

(Sofia Martinello/JS – Fotos: Bárbara Cabral)
 


Fonte: https://www.csjt.jus.br/web/csjt/-/venda-de-bonecas-produzidas-por-mulheres-apenadas-na-paraiba-chegam-ao-tst

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